Achas mesmo que eu sou algum parvo para te abrir a porta? Vento, vento… Podes assobiar a vontade que não te vou atender. A tua morada é o céu e os teus cómodos são montes, então despacha-te. Vi-te há pouco balançando eucaliptos para perfumar a noite. Em seguida, tocaste aquela canção agitada nas cordas dos pinheiros mais graves. Não estavas mal, mas de repente sais em disparada a serpentear no vale como se fosses abrir ainda mais fundo a ferida do Paiva. Magoaste-te nas pedras? Penso que sim, pois ouviu-se imenso barulho e espiralaste céu acima, deixando para trás uma nuvem fendida ao meio e foi por ali que eu vi uma estrela e pensei: «Cansou-se de brincadeiras, espalhou-se inteiro sobre a aldeia a se abrisar» Mas quando abro a porta de casa para me pôr guardado, surges feito seta partida desde a linha retesada no arco do horizonte à procura do alvo que estava no fim da minha direcção. Mais que depressa meto-me para dentro e fecho portas e frestas na tua face invisível como um soco. Agora andas para aí a assobiar, a ver se me enganas e te deixo vir para dentro. Depois o parvo sou eu.
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