E as memórias? chegam de repente, sem avisar, e então um impacto no peito por causa do que se lembrou. És tu! ainda que tivesses dez anos. Ainda os tens agora mesmo, nesta unidade que é o tu que sempre foste e continuas sendo. Eras miúdo e tinhas a mania de deitares na cama por volta das oito da noite a olhar para o céu, a ver estrelas, a lua e as nuvens que passavam pelo rectângulo aberto da janela. Era tanta a paz. De vez em quando viravas os olhos para o outro lado e vias a tua mãe na cozinha preparando a janta sob a única luz acesa em toda casa. Fumo a subir das panelas, cheiros a se infiltrarem para sempre na lembrança e a tua mãe de costas a cortar os legumes sobre a banca, a cantarolar uma canção inventada. Aperta os teus olhos para afinares bem os ouvidos, ouves? É a televisão que está ligada no outro cómodo e faz companhia. Às vezes a tua mãe estica o pescoço para ver o que está a dar. Era tanta paz. E quando voltas a olhar para o céu vês a silhueta da lua através das finas nuvens que vão passando. Olhas de novo e já não há mais lua, nem nuvens, mas há estrelas sobre a aldeia e já não tens só dez anos, tens mais, mais estes que vais sendo. É outro o céu. E está frio. Um pouco de nevoeiro insinua-se desde o rio e vai crescer como eu em todos estes anos, lentamente. Era tanta, a paz. Onde estavam as perguntas? Era só beleza e espanto! E agora, o que vais fazer? Eu não sei. Neste momento, nem me interessa. Enquanto estou a olhar para um céu estrelado como o desta noite, eu não preciso de respostas.
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