domingo, 10 de junho de 2012

Na esplanada do café Súrya

Help, it`s a bad dreamÉ domingo e estou na esplanada do café Súrya, em São João da Madeira; café que fica à beira de uma metáfora já muito gasta de tão usada para a vida: uma rotunda. E do ângulo onde estou, eu vejo dela apenas uma pequena parte entre cadeiras, toldos, uma árvore, um carro estacionado: eu vejo a rotunda através de uma ferida na paisagem. E dou um sorriso porque esta já me parece uma figura de linguagem no mínimo seminova. Eu também trouxe livros, e fiz bem já que o sol está a atrapalhar a vista do ecrã e eu, ao escrever esta coisa, devo estar a dar com uma falsa impressão de miopia nos outros. Então abro um dos livros ao léu e tomo logo com isto nos olhos:

«Toquei-te e recordo que o fiz com algum receio, que mal encostei ao teu rosto a ponta dos meus dedos, pois temia que, de algum modo, a tua febre me queimasse e que o ferro em brasa da tua beleza me tatuasse no corpo uma marca perene que eu não pudesse apagar jamais.»

(Jorge Marmelo, in 'As Sereias do Mindelo')

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